I M P U N I D A D E - VERGONHA NACIONAL

É INACEITÁVEL QUE A IMPUNIDADE E A VIOLÊNCIA SEJAM TRANSFORMADAS EM VALORES LEGÍTIMOS DO MORAL NACIONAL*** Não existe democracia onde não existe segurança do Direito com Soberania, Paz Social, Progresso, Integração Nacional e Integridade do Patrimônio Nacional.

20070308

Diferença entre ideal e realidade comunistas

por Carlos I.S. Azambuja em 08 de março de 2007

Resumo: Bukharin é um exemplo de figura trágica do intelectual bolchevique, alquebrado, arrependido, e que presta, com sua mentira, com sua desonra e com sua morte, um último serviço e uma última homenagem ao caráter infalível de seu partido.

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Vários historiadores, apesar de incluírem em suas abordagens os crimes comunistas, estimam, todavia, que o comunismo foi um movimento animado por um ideal humanista e generoso, deturpado em virtude das circunstâncias, e que se caracterizou, portanto, por um abismo entre projeto, doutrina e realidade. Ora, que ‘abismo’ poderia haver entre o homem que funda a doutrina, o que funda o partido, o que funda o regime e o que funda o terror, quando se trata do mesmo homem: Lenin? Teria ele imaginado um ‘bom ideal’ posto em prática por ele próprio de uma maneira totalmente deturpada? Nicolas Werth - um dos autores do Livro Negro do Comunismo - publicou um documento que esclarece esse problema entre tensão humanista e realidade criminosa por um ângulo inédito: a última carta de Bukharin a Stalin, datada de 10 de dezembro de 1937, antes do terceiro grande processo de Moscou – iniciado em 2 de março de 1938 e concluído com 19 condenações à morte, inclusive a do próprio Bukharin (1).

Essa carta emana de um dos principais chefes do partido – alguém que por muito tempo foi apresentado como o próprio símbolo do idealismo comunista oposto à deturpação stalinista e que chegou mesmo a ser alçado à moda na URSS de Gorbachev, onde foram publicadas suas Obras Escolhidas - e exige que nos detenhamos em seu teor.

Bukharin começa assegurando a Stalin as suas intenções:

“Para que não haja mal-entendidos, quero dizer a você que para o mundo exterior: 1. Não retirarei nada – publicamente – do que escrevi durante a investigação; 2. Não pedirei a você nada no que concerne a isso, e tudo o que é decorrente. Não vou lhe implorar nada que possa fazer derrapar o processo, que segue seu curso. É apenas para sua informação pessoal que estou escrevendo. Não posso deixar esta vida sem escrever estas últimas linhas, pois sou atormentado por várias coisas que julgo ser preciso que você saiba. São:1. Estando à beira de um abismo do qual não há retorno, dou-lhe minha palavra de honra que sou inocente dos crimes que reconheci durante a investigação (...); 2. Eu não tinha outra ‘solução’ a não ser confirmar as acusações e os testemunhos dos outros e de desenvolvê-los. De outra forma, poder-se-ia pensar que ‘eu não estaria depondo as armas”.

Bukharin reivindica então o princípio de uma dupla verdade: a que é interna ao grupo revolucionário – ao partido -, e a reservada ao mundo exterior, profano e sem importância – as sociedades nacional e internacional -, exceto no que diz respeito à imagem do partido, isto é, à propaganda. Bukharin vai mais longe: aceita e justifica o princípio do expurgo, enfatizando seu caráter racional relativamente às circunstâncias e aos objetivos do partido.

Prossegue Bukharin:

“Há a grande e audaciosa idéia do expurgo geral: a) em relação à ameaça de guerra; b) em relação à passagem à democracia.

Esse expurgo atinge: a) os culpados; b) os elementos duvidosos; c) os potencialmente duvidosos (...); dessa maneira, a direção do partido não assume risco algum, dotando-se de uma garantia total.

Peço-lhe encarecidamente que não pense que, com esse raciocínio, eu esteja fazendo a você alguma censura. Amadureci, compreendo que os grandes planos, as grandes idéias, os grandes interesses são mais importantes do que tudo; que seria mesquinho pôr a questão da minha miséria pessoal no mesmo plano desses interesses de importância mundial e histórica, que repousam, antes de tudo, em seus ombros”.

Essa aprovação do expurgo como meio de concretizar os interesses gerais do partido e da revolução, vai conjuntamente unido a um sentimento agudo de culpabilidade criado pelo partido em todos os seus membros.

Outra vez Bukharin, em sua autocrítica demolidora:

“Considero que devo expiar por todos esses anos durante os quais eu realmente promovi um combate de oposição contra a linha do partido. Você sabe, o que mais me atormenta neste momento é um episódio que você talvez tenha esquecido. Um dia (...) eu estava em sua casa e você me disse: ‘sabe por que sou seu amigo? Porque você é incapaz de fazer intrigas contra quem quer que seja’. Eu concordei e logo depois corri para a casa de Kamenev (...) Esse é um episódio que me atormenta; é o pecado original; é o pecado de Judas (...) E, agora, estou expiando por tudo isso, pagando com minha honra e minha vida. Por tudo isso, perdoe-me Koba (2) (...) não posso calar-me sem lhe pedir perdão pela última vez. É por isso que não sinto raiva de ninguém, nem da direção do partido e nem dos investigadores. E, mais uma vez, lhe peço perdão, ainda que eu esteja sendo punido de uma forma que tudo não seja senão trevas (...)”.

Esse sentimento de culpabilidade é acompanhado por uma forte vontade de redenção através dos serviços que Bukharin ainda pode oferecer ao partido. E faz uma proposta desesperada:

“Se minha vida fosse poupada, eu apreciaria (...) ser exilado na América por x anos. Argumentos a favor: faria campanha a favor dos processos; conduziria uma luta mortal contra Trotsky; reconduziria de volta para nós amplas camadas da intelligentzia, seria praticamente um anti-Trotsky e conduziria todo o caso com grande entusiasmo. Você poderia enviar comigo um chekista experiente e, como garantia suplementar, você poderia manter minha mulher como refém na URSS por seis meses, o tempo em que eu demonstrarei, nos fatos, como arrebento a cara de Trotsky (...). Se você tiver um átomo que seja de dúvida dessa variante, exile-me por 25 anos em Petchora ou em Kolyma, num campo. Eu organizarei, no local, uma universidade, um museu, uma estação técnica, institutos, uma galeria de arte, um museu de etnografia, um museu zoológico, um jornal do campo. Numa palavra, eu levaria ali um trabalho pioneiro de base, até o fim de meus dias, com minha família”.

Esse documento é surpreendente e mostra um Bukharin aprisionado numa visão utópica e em seu fanatismo ideológico. Ele continua a alimentar seu combate político com palavras homicidas – ‘uma luta mortal’ contra Trotsky – que não seria sem conseqüências, como o mostrará o assassinato de Trotsky, precisamente por um ‘chekista experiente’. Ele continua a crer que os campos sejam locais de reeducação para o trabalho e para a cultura, como expõe a propaganda do regime. E vai ainda mais longe, proclamando seu amor por Stalin. Ora, durante o último encontro com Fiodor Dan, dirigente menchevique exilado em Paris, na primavera de 1936, Bukharin declarara acerca de Stalin: “(...) não é nele que confiamos, é no homem no qual o partido confia. Não sei como aconteceu, mas é assim. Ele se tornou o símbolo do partido”. Frase muito semelhante à da famosa declaração de Trotsky no XIII Congresso do Partido Bolchevique, em 1934: “Nenhum de nós pode ter razão contra o seu partido. E, em última instância, o partido sempre tem razão (...) Quer ele tenha razão ou não, é o meu partido”. O ‘partido’ permanece como único horizonte desses homens formados pelo Que Fazer? de Lenin, e a função do partido é, precisamente, reduzir ao máximo o abismo entre o ideal e a realidade, exceto que, uma vez no poder, o partido instaure uma realidade imposta como ideal que todo comunista deva, a cada instante, aprovar e promover.

A carta de Bukharin atinge o ponto mais profundo da mentalidade comunista quando seu autor chega a proclamar seu respeito e seu amor por Stalin: “Ao longo de todos esses últimos anos eu segui, honesta e sinceramente, a linha do partido e aprendi, com meu espírito, a respeitar e amar você (...) Quando penso nas horas que passamos discutindo juntos (...) Meu Deus, porque não existe um aparelho que permita a você ver minha alma dilacerada, estraçalhada! Se apenas você pudesse ver como estou interiormente ligado a você (...) Bom, vamos lá, perdoe-me por essa ‘psicologia’. Não há mais anjo que possa desviar o gládio de Abraão! Que o destino se cumpra!”

E, concluindo a carta: “Iossif Vissarianovictch! Você perdeu comigo um de seus generais mais capazes e mais devotados (...) Estou me preparando interiormente para deixar essa vida, e experimento, por todos vocês, pelo partido, pela nossa Causa, um sentimento que não é outro senão um imenso amor sem limites (...) Minha consciência é pura diante de você, Koba. Peço-lhe mais uma vez perdão (um perdão espiritual). Aperto você em meus braços, em pensamento. Adeus pelos séculos dos séculos e não guarde rancor deste infeliz que sou”.

Bukharin
Vinte anos depois de novembro de 1917, um dos principais dirigentes bolcheviques, ‘o mais precioso e o teórico mais forte do partido’, segundo Lenin, mostra-se incapaz de compreender o caráter anti-humano do sistema que ele contribuiu para instaurar e do qual ele vai ser a vítima. Pior, ele adere a esse sistema, a seu projeto (‘a nossa Causa’), à sua lógica (‘a grande e audaciosa idéia de expurgo geral’), inclusive com o preço da própria vida – e também a vida da sua mulher, a quem ele estava disposto ‘a deixar como refém’! Se, para além dos desvios do stalinismo, Bukharin é considerado por muitos como a figura mais pura da idéia comunista, isso simplesmente vem provar que essa idéia coincide com a prática stalinista. Como já mostrara Arthur Koestler em O Zero e o Infinito, Bukharin é exatamente essa figura trágica do intelectual bolchevique, alquebrado, arrependido, e que presta, com sua mentira, com sua desonra e com sua morte, um último serviço e uma última homenagem ao caráter infalível de seu partido.



O texto acima é um resumo do tema em epígrafe, publicado nas páginas 112 a 116 do livro Livro Cortar o Mal pela Raiz! História e Memória do Comunismo na Europa, diversos autores sob a direção de Stéphane Courtois, editora Bertrand do Brasil, 2006.

1. Six lettres de Boukharine, Nicolas Werth, Communisme, 2000, n° 61, pp. 7-42.

2. Koba: apelido que os kamaradas mais jovens deram a Stalin


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